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Vivemos
num mundo onde à razão cínica não
se contrapõe mais a razão utópica. O
filme "Doces Poderes" coloca a olho nu esta questão,
de vários pontos de vista: o da midia, o do poder político
e a ótica individual dos profissionais de comunicação.
Sua importância está em mostrar como esta questão
se dá concretamente no Brasil, um país onde
uma democracia recente convive com um capitalismo perverso.
Desnudar a forma como o poder político se estabelece,
mostrando todas as forças em jogo numa eleição
é de extrema importância para que se possa apreender
o país em que vivemos. As altas verbas destinadas às
campanhas eleitorais tornaram natural que publicitários,
redatores, repórteres, cinegrafistas e diretores aderissem
a esse mercado sem que houvesse qualquer critério,
a não ser o financeiro, para a escolha dos candidatos
aos quais iriam servir enquanto profissionais. Premidos na
luta pela sobrevivência, perdidos entre os sonhos que
acabaram, a questão ética parece ter se tornado
algo do passado.A esquizofrenia e a selvageria destas relações
estão à mostra neste filme. Para o espectador,
esta é uma oportunidade de se emocionar, pensar e refletir
sobre a realidade brasileira, sem maniqueísmos. Podres
poderes ou doces poderes? Neste confuso fim de século,
o filme pergunta: como sobreviver a todas estas contradições,
se não existe mais um mito no fim do tunel? "Doces
Poderes" se insere na linha dos filmes que pretendem restabelecer
uma relação com o espectador brasileiro, respeitando-o
como alguém que pode e deve ser crítico. E apesar
de desnudar relações de poder existentes no
nosso país, trata de questões que atingem o
mundo todo: a monetarização das relações
humanas, o novo papel da midia, a crise da ética.
Lúcia
Murat
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