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Próximo filme de Lúcia Murat, um musical 'à la' 'Romeu e Julieta' numa favela, terá coreografia de Graciela Figueiroa, mito da dança no Rio dos anos 70. Uma adaptação cinematográfica livre de "Romeu e Julieta", sediada em contexto urbano contemporâneo e cuja principal ferramenta narrativa é a dança, uma dança energética, ocasionalmente furiosa. "West Side story", certo? Errado. É "Eu prefiro a Maré", próximo filme de Lúcia Murat, diretora cuja obra sempre teve como foco o Brasil da ditadura e as marcas por ele deixadas no Brasil de hoje ("Que bom te ver viva", "Doces poderes", "Quase dois irmãos"). Mas que fez balé clássico até os 19 anos e sempre teve o sonho de fazer um musical. E vinha formatando essa idéia ao longo dos anos, maturando-a, acrescentando-lhe elementos, do clássico de sua formação à dança de salão. Até achar os dois pilares aparentemente desconexos sobre os quais desejaria erguer seu filme: os movimentos frenéticos do hip hop e a veterana coreógrafa uruguaia Graciela Figueiroa. - Aqui no Brasil, todo o mundo samba, todo o mundo dança. Essa mistura já está dentro, e você só precisa encontrar a forma para que tudo isso saia - diz Graciela, minutos antes de ir para uma das salas de ensaios do Centro Coreográfico da Cidade do Rio de Janeiro, na Tijuca, para sacudir a mistura, ou seja, os 31 bailarinos que formarão o núcleo-base do filme (ao todo, serão cerca de 50). É o encontro de dois mundos, separados no tempo e no espaço. A uruguaia Graciela é um mito da dança carioca dos anos 70, madrinha e mentora de expoentes das décadas seguintes, como Deborah Colker e a Intrépida Trupe. É uma ideóloga do diálogo entre a dança e outras formas de expressão, como o teatro. Já os 31 bailarinos vêm de companhias de dança de propostas bastante diversas (Cia. Urbana de Dança, Cia. Étnica, Dançando Para Não Dançar), mas tendo em comum a origem humilde: todos vêm de comunidades carentes ou das proximidades delas. E, em grande parte dos casos, também o parentesco estético com a linguagem corporal do hip hop e da dança de rua, de carga social intensa. - O que me chama a atenção no hip hop é o prazer e a vontade de dançar, a coisa social, de protesto, de raiva, de pressão, que se expressa - explica a coreógrafa, sobre a dança que conheceu no berço, na Nova York dos anos 70. - A força, o cultivo da força, o cultivo da persistência na vida e na dança. A alegria, a raiva que passa pela dança e se transforma em alegria. "Quero chegar o mais perto da perfeição" O convite de Lúcia gerou este que é o primeiro trabalho de Graciela no Brasil em tempo integral nos últimos 15 anos. Ela, que chegou ao país em meados dos anos 70, e começou a deixar sua marca por aqui ao fundar o grupo Coringa, foi embora em 1990, por motivos pessoais. Voltou a Montevidéu, onde vive até hoje. E, mesmo nessa fase de preparação para as filmagens de "Eu prefiro a Maré", marcadas para começarem em julho, não estará por aqui o tempo todo. -
Em agosto, mostrei para ela um vídeo de alguns dos meninos da Cia.
Urbana de Dança (cuja mentora, Sonia Destri, coordenou os testes de
escalação de elenco do filme e está agora à frente dos ensaios,
juntamente com Graciela) - diz Lúcia, para quem o filme só passou a
existir de fato quando ficou claro que havia um grupo de bailarinos
consistente com o qual desenvolvê-lo. - Graciela topou e chegou ao Rio
há 15 dias. Fica aqui até 5 de maio. Aí volta em junho. Nesse
meio-tempo, a Sonia vai tocando a preparação do elenco. E essa preparação é ainda mais necessária do que na feitura de um filme convencional. Isso porque, a partir desses ensaios, Graciela está criando coreografias bem definidas que deverão ser desenvolvidas com o máximo de rigor. Lúcia não deseja, nas palavras dela, "defender-se com a câmera" (ou seja, usar a montagem e os enquadramentos para disfarçar movimentos não tão bem realizados). A proposta é de virtuosismo mesmo. - Estamos trabalhando sete dias por semana, faltando ainda quatro meses para as filmagens - diz a diretora. - A idéia é chegar o mais perto possível da perfeição. Além disso, há uma outra questão. Se as noções de dança de rua e de celebração da energia mais vital fazem pensar em palavras como "improviso" e "espontaneidade", não é inteiramente por aí. Claro que o vigor do hip hop será a base da coreografia do filme, e os bailarinos de formação mais clássica, como os do Dançando Para Não Dançar, estão tendo que se adaptar bem mais ao gingado dos de street dance do que o oposto. Mas a coisa também não é baile. - É necessária uma disciplina. Existe um lado técnico - explica Sonia Destri. - Não se gira no chão apoiado em cima da própria cabeça assim sem mais nem menos. Claro que nem todos precisam fazer isso. A mistura de diferentes técnicas tem um pouco a função de garantir uma coreografia mais rica a partir dos pontos fortes de cada um. Isso é visível no próprio aquecimento para o ensaio técnico: dá para se ter uma noção da formação de cada um observando os movimentos que fazem em frente ao espelho. Trilha de Pedro Luís com toque de "Moulin Rouge" - Na dança hip hop propriamente dita, por exemplo, os melhores são os homens - diz Sonia Destri. - Não tem jeito. Você necessita de uma força muito particular para fazer determinados movimentos. A gente joga muito com essa força deles. Por outro lado, a capacidade de alongamento não se compara à dos bailarinos clássicos. - A dança clássica tem uma característica mais apolínea, mais vertical - descreve Graciela. - Na dança contemporânea, pega-se uma energia da terra, explora-se mais o chão, os centros mais baixos. É claro que, além da parte puramente física, a exaustiva preparação pela qual os bailarinos estão passando inclui o processo gradual de entrada nos personagens. Este é um filme cujo elenco principal é de não-atores (haverá participações especiais, que Lúcia prefere não revelar, por falta de contrato assinado, e, de resto, apenas dois papéis de vulto cujos intérpretes não terão de dançar). E alguns deles ainda terão de cantar. - A trilha do filme será feita pelo Pedro Luís - diz Lúcia. - E terá uma característica meio "Moulin Rouge", vamos usar em parte músicas já existentes, rearranjadas e cantadas por eles. Legenda da foto: A DIRETORA Lúcia Murat, a coreógrafa Graciela Figueiroa e a ensaiadora Sonia Destri Jornal: O GLOBO Autor: Jaime Biaggio |
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