

Praça Paris é um thriller que mostra o conflito entre uma psicanalista portuguesa, Camila, que veio ao Brasil para desenvolver uma pesquisa sobre violência, e sua paciente, Glória, num Centro de Terapia de uma universidade brasileira (UERJ). Glória é ascensorista na universidade e tem uma história de violência muito difícil: estuprada pelo pai, tem apenas um irmão, que sempre a protegeu, mas que era chefe do tráfico do morro. O filme mostra uma relação de transferência ao inverso, onde o medo do outro acaba dominando a trama.
Encerradas em uma sala, Camila e Gloria começam a desenvolver uma relação de proximidade e, mesmo que de forma contida, de afeto. Um vínculo inicialmente improvável se estabelece entre as duas, e num contundente caso de contratransferência entre analista e analisando, esse vínculo extravasa as barreiras do consultório.
Com intensidade, com violência, com a mesma força das britadeiras que quebram as ruas da cidade, reformando-a para os Jogos Olímpicos, martelam a cabeça da analista pensamentos sobre a história da paciente. Esta, por sua vez, já não é a mesma Gloria: agora se espelha e inconscientemente inveja a vida de Camila.
Em 1926, como parte de um megalomaníaco “Plano Agache”, que em sua totalidade nunca foi realizado, e pretendia aproximar o Rio da capital da França, a Praça Paris foi criada, seguindo o paisagismo clássico francês cuja grande expressão é o Palácio de Versailles.
No filme, Camila vai procurar a praça Paris, onde sua avó também tirou uma foto décadas atrás. A praça representa essa tentativa de transformar o Rio em outra cidade, assim como o pano de fundo do filme são as obras para as Olimpíadas que pretendiam, mais uma vez, transformar o Rio, em uma “outra” cidade moderna.
Parafraseando o escritor Lima Barreto, grande crítico das transformações ocorridas no Rio no início do século XX: “A vida não pode ser uma dor, uma humilhação de burocratas idiotas”. Em meio a fotos de destruição/intervenção do Rio de diversas épocas, essa frase está na exposição do personagem Martim, fotógrafo e namorado de Camila no filme.
Praça Paris, esse pedaço que se pretende Paris no meio de um centro poluído, sem relação com a realidade tropical, faz, apesar de tudo, parte da nossa história, assim como pessoas Camila e sua avó.