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Ficção – 35 mm
Duração: 100 min
Orçamento: R$ 3.600.000,00
Sinopse:
Um drama irônico sobre utopias derrotadas, terrorismo, comportamento sexual e a construção de um mito. Um grupo de amigos, que resistiram à ditadura militar, e seus filhos vão enfrentar o conflito entre o cotidiano de hoje e o passado quando um deles está morrendo.
Nota do diretor
Há muito venho pensando em fazer um filme que fosse um balanço de geração. Da geração de 68 da qual faço parte, e cuja experiência no Brasil é bem diferente do imaginário mundialmente conhecido e que vem sendo veiculado há 40 anos. É verdade que a América Latina, como o Vietnan, estavam no centro do discurso de 68 (La Faute à Fidel) , mas nós conhecemos muito pouco a história daqueles para quem as pedras não foram suficientes para ameaçar ditaduras estabelecidas.
Diferente dos personagens de “Invasões Bárbaras”, esta geração no Brasil viveu uma situação limite durante a ditadura militar, quando torturas e assassinatos eram práticas institucionais. Diferente também é a sua participação na sociedade brasileira hoje. Entre os sobreviventes, muitos encontram-se no Governo, outros têm uma presença importante no debate intelectual. Num país com problemas sociais gravíssimos, esta geração hoje faz parte da elite.
Eu não tenho, no entanto a intenção de fazer um inventário a mais das utopias de 68 ou de fazer um “Invasões Bárbaras” com um molho brasileiro. Longe de trabalhar sobre o crepúsculo de uma civilização, este filme quer falar de uma história que ainda está se fazendo: a história da utopia diante do poder, diante das fragilidades, dúvidas e feridas íntimas daqueles que seus filhos ainda consideram como “heróis”.
Sala de Espera vem deste desejo longamente alimentado, mas a sua concepção está baseada em fatos que aconteceram recentemente no Brasil.
- A morte, em dezembro de 2007, de Vera Silvia Magalhães, verdadeiro ícone da resistência e da esquerda brasileira;
- A prisão no Rio de Janeiro de Cesare Battisti, ex-membro de um grupo comunista de luta armada da Itália, ameaçado de extradição. Battisti é o quinto italiano preso nos últimos cinco anos no Brasil, acusado de terrorismo. Os últimos quatro, que viviam no país há cerca de vinte anos, foram soltos pelo Supremo Tribunal Federal, que considerou suas ativididades políticas e não terroristas e lhes deram o direito de asilo.
- A publicação recente do relatório « O direito à memória e à verdade », que relata 400 casos de torturas e violências cometidas durante a ditadura pelo estado brasileiro, iniciativa que provocou mais uma vez o debate sobre a anistia e a impunidade de antigos torturadores.
Vera Silvia Magalhães, a personagem central do filme, ex-guerrilheira, uma das responsáveis pelo sequestro do embaixador norte-americano no Brasil em 1969, se tornou um mito da esquerda. Muito torturada, depois da prisão e do exílio, nunca mais voltou a ter uma participação importante na sociedade brasileira. Diversas vezes foi internada em crises psicóticas, quando a experiência da tortura voltava como se nunca a tivesse abandonado. Por duas vezes teve também um câncer. Nestes momentos de internação, todos os amigos da época, ex-companheiros, ex-guerrilheiros, grupo do qual eu participava, se reuniam no hospital. Nos intervalos destas crises, continuava angariando admiradores de diversas idades, atraídos por seu senso de humor apurado, inteligência e capacidade de sedução que ela ainda exercia mesmo estando muito debilitada.
No ano passado foi internada com um efizema e o corpo já combalido de todas as doenças e dos muitos remédios psiquiátricos. Os amigos achavam que seria mais uma internação. Ela morre depois de um mês, causando uma grande comoção entre os muitos daqueles que resistiram à ditadura brasileira. Em Sala de Espera, quero utilizar como linha central do filme o encontro de um grupo de amigos em torno de uma figura emblemática que está morrendo.
Vera Silvia (ANA) vai ser, no entanto, um personagem central inexistente. Achei melhor nunca mostrá-la no filme . Ela será apresentada como um mosaico construído a partir de um kaleidoscópio formado pelas diferentes visões que cada um tem dela. Porque é impossível decifrar um mito. Vera Silvia (ANA) é a síntese de todas as contradições de sua geração. É o passado heróico e as dúvidas do presente, onde a corrupção e a presença da tortura ficaram como uma herança para os pobres do país. Esta culpa velada com que todos convivem por terem sobrevivido se amacia com o tempo e a força da vida cotidiana. Mas a própria existência de Vera Silvia (ANA), sua rebeldia, sua dor, sua loucura ajuda também a minorar esta culpa como se fosse possível alguém ser a ponte entre passado e presente, entre os mortos e os vivos.
SALA DE ESPERA se desenvolverá em torno do pólo magnético representado por ANA. O roteiro é o de um filme coral, onde cada personagem constituirá uma relação particular entre os anos 60 e hoje: ministro, artista plástico, cineasta, ex-militante italiano. Um destes personagens, IRENE, é cineasta e está lançando um filme. Ela enfrenta toda a mediocridade que cerca o lançamento de um filme, a “ditadura” das assessorias de imprensa e do marketing no mundo artístico, o circo que precisa ser enfrentado quando se termina uma obra.
PAOLO, italiano acusado de terrorismo que foi preso pela Interpol e conseguiu asilo político no país é outro do grupo de amigos de VERA. Aqui, o conceito de terrorismo, uma questão extremamente atual, vai estar colocada no confronto entre o grupo de “heróis” brasileiros e “bandidos” italianos. Também faz parte desta discussão a decisão ou não de se abrir os arquivos da ditadura. Há ainda aqueles que continuam achando que é preciso punir os torturadores, em tese “anistiados” por uma lei feita durante o período ditatorial, e os que acusam esta atitude de revanchista.
Também é importante a visão que a geração dos filhos tem da luta contra a ditadura. Os antigos militantes são vistos como heróis, apesar de todo o inevitável conflito de gerações, o que torna muitas vezes a vida ainda mais difícil para os jovens.
Outra opção importante desse filme é desenvolver seus personagens a partir de um quebra-cabeça onde passado e presente se misturam. A proposta é de uma liberdade de estilo em que a narrativa clássica seja substituída por uma estrutura mais livre, permitindo que fragmentos de memória se mesclem com situações do cotidiano.
Uma questão é comum a todos que se reencontram naquela sala de espera: o que é sobreviver? Que pulsão os levou a optar pela vida? No caso de IRENE essa resposta está no cinema. Meus filmes de alguma maneira sempre trataram da ditadura/violência, do conflito de gerações e do cinema como o sonho possível. Ao final, o espectador vai saber que o filme de IRENE é a própria história de ANA. Instintivamente, por sobrevivência, o cinema - a obra de arte – se sobrepõe ao circo mediático.
Lúcia Murat |