Não existiam cavalos na América. Quando os espanhóis chegaram, alguns índios aprenderam a domar os cavalos perdidos e passaram a utilizá-los. Entre eles, na América do Sul, o grupo mais importante foi o dos guaicuru. Utilizando os cavalos como arma de guerra, a nação guaicuru chegou a dominar uma grande extensão de terra, que se estendia de onde hoje se situa Assunção, no Paraguai, até Cuiabá, no Mato Grosso. Os guaicuru ficaram na história com sua imagem indelevelmente ligada à imagem de cavaleiros. Uma gravura de Debret, que pode ser encontrada em diversos hotéis de poucas estrelas da região mato-grossense, mostra bem esta relação. Debret nunca esteve na região e deve ter feito a gravura baseada em descrições. Por esta imagem, os índios guaicuru se assemelham mais a cavaleiros romanos. Mas foi essa a imagem que ficou no imaginário brasileiro. É uma cópia dessa gravura que compõe o mural que hoje decora a Assembléia Legislativa de Campo Grande, capital de Mato Grosso do Sul.
Foi também a partir dela que foi feita uma imensa estátua nessa mesma cidade. O interessante é a apropriação desse mito pela sociedade branca e como essa apropriação está dissociada da tribo sobrevivente. Diversas atividades na região evidenciam o respeito e a reverência da história oficial em relação a esse passado épico. No entanto, em nenhum momento, isso é relacionado com a tribo sobrevivente, os kadiwéu. Eles fazem parte do mundo indígena real: “traiçoeiro e preguiçoso”, segundo a historiografia branca.




