Nota da diretora

O fato de ter me formado como bailarina clássica ao final da adolescência, depois de anos de estudo, se não me levou a ser bailarina – até porque a vida me levou para outros caminhos – conformou a minha paixão por todas as formas de expressão corporal. Mas é inegável que o rigor do conjunto trabalhado pela técnica do clássico sempre me encantou. Um rigor que a vida mostrou poder ser igualmente encontrado na bateria da Mocidade Independente, num espetáculo da Broadway ou (de volta) num bom Lago do Cisne.

Há algum tempo pensava em fazer um filme musical que resgatasse a geleia geral brasileira. Sabendo que seria impossível ressuscitar o Cassino da Urca, a chanchada ou o tropicalismo, me deparava sempre com os arremedos de cópias mal feitas que a globalização vem apontando. Tentar apenas copiar o rigor da cultura de “bom tom” teria fatalmente como resultado - ainda mais para quem gosta e conhece dança – o ridículo.

Quando assisti a alguns espetáculos recentes de dança contemporânea, muitos trabalhando com comunidades carentes e muito bem sucedidos como espetáculo, voltei a pensar num filme musical brasileiro. O fato desses espetáculos trabalharem com a nossa diversidade cultural cria corpos de baile de todas as cores e misturas, sem qualquer preocupação de uniformização, como nos espetáculos tradicionais. Apenas isso já seria encantador, pois é inegável que a diversidade é encantadora.Lucia Murat - Maré, nossa história de amor

O que, no entanto, nos faz pensar um pouco além é verificar que a forma utilizada para que essa diversidade se expresse é rigorosamente perseguida. E o resultado desses dois fatores é absolutamente singular. E brasileiro. “Maré, Nossa História de Amor” se propôs a formar um corpo de baile a partir dos vários grupos de dança do Rio de Janeiro, trabalhando, portanto, com a nossa diversidade étnica e cultural, mas buscando o mesmo rigor de conjunto de um espetáculo tradicional.

Da mesma forma como meus últimos trabalhos (Brava Gente Brasileira – com os índios – e Quase Dois Irmãos – com os grupos de teatro das comunidades) incorporei a experiência dos atores e das situações que enfrentamos no laboratório e na construção final do roteiro. Para isto, contei com o escritor Paulo Lins (autor de “Cidade de Deus” e co-autor de “Quase Dois Irmãos”) e com a coreógrafa Graciela Figueroa, figura fundamental na formação da dança contemporânea no país.