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Duas gerações
um filme de Lucia Murat

Irene Ravache

Irene Ravache, que faz o papel de Irene, personagem escrito para ela e que retoma 20 anos depois, o personagem central de Que bom te ver viva, fala da sua experiência:

  • Esse é um filme que contrapõe duas gerações. Como seu personagem vê a questão do conflito de gerações?

    Não vejo a Irene como uma saudosista. Se ela fala do passado é porque as coisas mais fortes, os sentimentos mais profundos, aconteceram naquela época. Mas ela não carrega isso como uma bandeira. A vida continuou, ela trabalha com cinema, e convive com gente de todo tipo. Não é uma "tia ranzinza" mergulhada na ideia de que "no seu tempo é que era bom". No entanto, é inevitável falar do passado, pois, no momento em que o filme acontece, ele está presente de forma contundente: sua grande amiga de juventude e luta está morrendo num leito de hospital. Então, tudo volta de uma forma muito forte, e é isso que interessa. Ainda assim, ela continua tocando a sua vida.

  • Alguns temas estão em pauta no filme. Entre eles, o da homossexualidade. Como seu personagem trata o tema?

    A Irene "aceita" o namoro do filho Eduardo com o Gabriel, filho de seu companheiro de luta, Ricardo, que "finge" não saber de nada. Mas será que a Irene aceita mesmo? Ela ainda tem um pouco de esperança de que o filho possa se interessar por uma moça e, quem sabe, lhe dar netos. E o Ricardo, será que ele finge ou sabe?

  • O que é para você o passado da geração 68?

    A geração de 68 tomou uma posição politizada, sabemos que alguns mais do que outros, e que alguns muitas vezes nem tinham convicções fortes, mas juntavam-se aos companheiros. Foi uma geração que se colocou, foi à luta e sofreu as consequências. Difícil imaginar hoje algo semelhante numa geração que, ao meio-dia, se reúne em bares bebendo cerveja. A julgar pelos risos e piadas, parecem satisfeitos com o país do jeito que está.  Mas é difícil também imaginar que algumas personalidades admiráveis da geração de 68, estejam hoje em casa ou em Ministérios "contando o vil metal". Também parecem satisfeitos com o país do jeito que está.

  • Como foi fazer o filme para você?

    Foi muito bom! Um reencontro com uma diretora autoral, firme e talentosa. Quando li o roteiro fiquei emocionada com a possibilidade de fazer uma personagem que tem o meu nome e ao mesmo tempo é a diretora, é muito forte. Uma ligação que vem desde "Que bom te ver viva", filme que fizemos na década de 80. Uma personagem firme, sem vaidades, mas com uma ligação bonita e afetuosa com os amigos. Contracenei com atores estimulantes e generosos. A fotografia é linda! E a Lucia sabe o que quer contar. Confio nela.

Miguel Thiré

Miguel Thiré que faz o papel de Eduardo, filho de Irene, fala da sua geração:

  • Esse é um filme que contrapõe duas gerações. Como seu personagem vê a questão do conflito de gerações?

    Penso que o conflito de gerações é uma coisa natural da qual não se pode fugir, posto que as gerações sempre vão ver o momento presente de pontos de vista diferentes. No caso do Eduardo, acho que ele também pensa assim.  Esse conflito dos personagens do filme é marcado por fatores específicos. O filho está passando por uma idade que marcou muito a vida da mãe numa época completamente diferente. O mundo e o país hoje são mais tolerantes, democráticos e pacíficos. Não que as injustiças sociais e os "inimigos" não existam. Muito pelo contrário. Mas eles não mostram a cara.  As maneiras de dominação de massa são outras. Penso que o Eduardo enxerga isso. Ele não é um alienado, como grande parte da nossa geração.  No entanto, acho que ele sabe que o modo de contribuir para este mundo é diferente do de outrora. E penso também que quando sua mãe não reconhece isso e cobra dele a postura que ela tinha em 68, isso o incomoda. Soa como injustiça.

  • Alguns temas estão em pauta no filme. Entre eles, o da homossexualidade. Como seu personagem trata o tema?

    Eduardo é homossexual. Tem uma relação firme com Gabriel (feito por Patrick Sampaio). Mas acho que antes disso ele é um artista. O que quero dizer com isso é que não vejo o "Duda" levantando essa bandeira. Vejo-o amando o Gabriel. E, claro, tendo de lidar com as dificuldades geradas pelo preconceito ainda existente na sociedade atual. No entanto, é no conflito doméstico que o filme se aprofunda: Como Irene lida com isso? Como o pai de Gabriel finge ignorar o fato de o filho ser gay? Como essas figuras de cabeça aberta em 68 se deparam com a questão dentro de casa? Sou heterossexual e posso me dizer "simpatizante", se é que esse termo ainda existe, ou seja, convivo com muitas pessoas que têm essa opção sexual, e isso não é uma questão para mim.

  • O que é para você o passado da geração 68?

    Foi um momento muito marcante da história do país. O momento em que ser cidadão deixou de ser discurso e se transformou em ação, o que falta nos dias de hoje. Não da mesma maneira,  é claro, porque  a injustiça tem outra cara. Acho que a alienação tomou uma proporção muito perigosa e que exemplos como o de 68, observados com cuidado, e, nas suas circunstâncias, devem ser seguidos de alguma maneira.

  • Como foi fazer o filme para você?

    Foi uma vivência muito importante. Passei por muitas coisas nesse mergulho. Muitas emoções diferentes. Fazer esse artista contemporâneo livre, sem travas no convívio social, agregador, foi o mais difícil para mim. Soltar as minhas travas. Ficar aberto. Ficar frágil. E dentro disso tudo lidando com a extrema cobrança dessa mãe na trama. Esse foi o lado mais difícil de explorar. Mais do que a opção sexual.  Não digo que isso tenha sido simples. Não foi. Mas dei a sorte de trabalhar com um amigo – Patrick Sampaio – e de ter o Rogerio Blat como preparador para descobrir esse caminho. Foi uma experiência maravilhosa ter contracenado com esse elenco, principalmente com Irene Ravache. Que, para mim, se tornou uma referência profissional e pessoal. Sou muito grato a Lucia Murat por ter me dado esse presente de fazer o Eduardo. De ter sido o "filho" dela na trama. De ter podido acompanhar tudo tão de perto. Acredito que foi um belo trabalho e que nos orgulharemos dele nas telas.