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um filme de Lucia Murat

Notas de direção

Há muito venho pensando em fazer um filme que fosse um balanço de geração.  Da geração de 68 da qual faço parte, e cuja experiência no Brasil é bem diferente do imaginário mundialmente conhecido e que vem sendo veiculado há 40 anos.

É verdade que a América Latina, como o Vietnan, estavam no centro do discurso de 68 (La faute à Fidel), mas nós conhecemos muito pouco a história daqueles para quem as pedras não foram suficientes para ameaçar ditaduras estabelecidas.

Diferente dos personagens do filme Invasões bárbaras, esta geração no Brasil viveu uma situação limite durante a ditadura militar, quando torturas e assassinatos eram práticas institucionais. Diferente também é a sua participação na sociedade brasileira hoje. Entre os sobreviventes, muitos encontram-se no Governo, outros têm uma presença importante no debate intelectual. Num país com problemas sociais ainda gravíssimos, esta geração hoje faz parte da elite.

Eu não tenho, no entanto a intenção de fazer um inventário a mais das utopias de 68 ou de fazer um Invasões bárbaras com um molho brasileiro.  Longe de trabalhar sobre o crepúsculo de uma civilização, este filme quer falar de uma história que ainda está se fazendo: a história da utopia diante do poder, diante das fragilidades, dúvidas e feridas íntimas daqueles que seus filhos ainda consideram como “heróis”.

A memória que me contam vem deste desejo longamente alimentado. Mas durante o desenvolvimento do roteiro, alguns fatos ocorridos no Brasil vieram se sobrepor aos personagens que estávamos desenvolvendo:

Veja A morte, em dezembro de 2007, de Vera Silvia Magalhães, verdadeiro ícone da resistência e da esquerda brasileira;

Veja A prisão no Rio de Janeiro de Cesare Battisti, ex-membro de um grupo comunista de luta armada da Itália, ameaçado de extradição. Battisti é o quinto italiano preso nos últimos cinco anos no Brasil, acusado de terrorismo. Os últimos quatro, que viviam no país há cerca de vinte anos, foram soltos pelo Supremo Tribunal Federal, que considerou suas atividades políticas e não terroristas e lhes deram o direito de asilo.

Veja A publicação do relatório «O direito à memória e à verdade», que relata 400 casos de torturas e violências cometidas durante a ditadura pelo estado brasileiro, iniciativa que provocou mais uma vez o debate sobre a anistia e a impunidade de antigos torturadores.  Seguida, em novembro de 2011, da criação da Comissão da Verdade que pretende revelar os atos contra os direitos humanos cometidos durante a ditadura.

Veja Vera Silvia Magalhães, que inspirou a personagem central do filme, Ana, era uma ex-guerrilheira, uma das responsáveis pelo sequestro do embaixador norte-americano no Brasil em 1969, que se tornou um mito da esquerda. Muito torturada, depois da prisão e do exílio, nunca mais voltou a ter uma participação importante na sociedade brasileira.

Diversas vezes foi internada em crises psicóticas, quando a experiência da  tortura voltava como se nunca a tivesse abandonado. Teve câncer duas vezes. Nestes momentos de internação, todos os amigos da época, ex-companheiros, ex-guerrilheiros, grupo do qual eu participava, se reuniam no hospital. Nos intervalos destas crises, continuava angariando admiradores de diversas idades, atraídos por seu senso de humor apurado, inteligência e capacidade de sedução que ela ainda exercia mesmo estando muito debilitada.

Em 2007 foi internada com um enfisema e o corpo já combalido de todas as doenças e dos muitos remédios psiquiátricos. Os amigos achavam que seria mais uma internação. Ela morreu depois de um mês, causando uma grande comoção entre os muitos daqueles que resistiram à ditadura brasileira.

ANA, a personagem livremente inspirada em Vera Silvia, vai ser apresentada no filme como uma fantasia dos principais personagens. Para eles, ela aparece jovem, como quando eles a conheceram. No filme, ANA é construída como se fosse um caleidoscópio formado pelas diferentes visões que cada um dos amigos tem dela.

A decisão de deixar ANA eternamente jovem partiu da dificuldade que temos em decifrar um mito. ANA ficará na história com a sua beleza. Ela é a síntese de todas as contradições de sua geração. É o passado heróico e as dúvidas do presente, onde a corrupção e a presença da tortura ficaram como uma herança para os pobres do país.  Esta culpa velada com que todos convivem por terem sobrevivido se amacia com o tempo e a força da vida cotidiana. Mas a própria existência de ANA, sua rebeldia, sua dor, sua loucura, ajudam também a minorar esta culpa como se fosse possível alguém ser a ponte entre passado e presente, entre os mortos e os vivos.

Uma questão é comum a todos que se reencontram naquela sala de espera: o que é sobreviver? Que pulsão os levou a optar pela vida? No caso de IRENE, essa resposta está no cinema. Meus filmes de alguma maneira sempre trataram da ditadura/violência, do conflito de gerações e do cinema. Em A memória que me contam o cinema é o sonho que me restou possível.