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um filme de Lucia Murat

A geração de 68 por ela mesmo

(de Lucia Murat, a roteirista que viveu 68)

Para mim era fundamental ter comigo no roteiro representantes da nova geração. Não queria fazer um filme saudosista.  (Apesar de não me considerar saudosista. Tenho uma vida muito estimulante e estimulada pelo cinema, o que me permite acompanhar os tempos que correm.) Mas o meu olhar  – como diz Irene atriz sobre a época –  terá sempre a força desse tempo em que tudo foi vivido no limite. A vida e a morte. A perda. A sobrevivência. A tortura.  E precisava de um contraponto.

Por isso, chamei Tatiana Salem Levy para trabalhar comigo no roteiro.

Não pretendíamos com o filme responder algumas perguntas recorrentes – como: Qual foi o legado da geração 68? –, pois não queríamos fazer um filme de tese. Por isso não nos interessavam respostas. As dúvidas, as impressões e as dores deveriam, no meu entender, tomar conta do filme , partindo de duas gerações diferentes. Não queríamos também cair no clichê do pai de esquerda militante com filho de mercado financeiro. O mais interessante seria contrariar esse clichê e trabalhar com uma nova geração que também é crítica e pensa na questão social. Apenas vive em outro tempo.

Sempre trabalho com pesquisa, mesmo em assuntos que conheço muito.  As entrevistas da Vera Silvia contribuíram para formatar a personagem Ana de tal maneira que muitos dos seus textos são da própria Vera. Entrevistas com artistas  plásticos, da nova e da velha geração, curadores e pessoas que trabalharam no primeiro escalão do Governo nos deram ideias e abriram caminhos.

O mais difícil foi transformar um filme que partia de uma série de discussões em imagens. Não queríamos nos fechar na sala da espera nem sair para contar o cotidiano de cada um. No processo, acho que descobrimos que ideias e impressões se tocam e podem se transformar também num fluxo de imagens, se conseguirmos no libertar de uma narrativa com principio, meio e fim. Evidente que exige mais trabalho, já que estamos rompendo manuais. Mas qual seria o prazer de fazer um filme sobre tanta rebeldia se não pudéssemos exercer a nossa liberdade?

Legado crítico

(de Tatiana Salem Levy, a roteirista que é filha de 68)

Quando a Lucia me convidou para colaborar no roteiro, fiquei muito entusiasmada. Em primeiro lugar, porque eu nunca tinha trabalhado com cinema. Em segundo, porque o tema me interessava particularmente. Meus pais fizeram parte da resistência à ditadura nos anos 60 e 70, e cresci ouvindo histórias dessa época, convivendo com ex-prisioneiros políticos, torturados, exilados. Eram muitas as histórias de dor e, no entanto, elas não chegavam a mim e às outras crianças em forma de lamento, de vitimização.

Ao contrário. Embora a revolução que eles propunham não tenha obtido êxito, nunca passaram a sensação de derrotados. O mais importante era deixar um legado crítico em relação ao mundo, uma abertura de pensamento. Se a revolução não ocorreu, ocorreram várias pequenas revoluções, mudanças fundamentais na nossa posição no mundo.

A memória que me contam surgiu como a perspectiva de transformar em arte questões com as quais convivi a vida toda. Meu diálogo com a Lucia era espontâneo, nos entendíamos muito bem, pois estávamos a falar de um universo
em comum, embora cada uma com um olhar distinto. Ela era a testemunha viva. Eu, aquela que conhecia o passado pela memória dos outros.

E foi justamente isso que quisemos explorar: Como segue a vida do sobrevivente? E como o herdeiro constrói a sua própria história?