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um filme de Lucia Murat

Ana e a história de Vera Silvia

A primeira vez que pensei em fazer esse filme foi há mais de 20 anos. Vera Silvia Magalhães, a quem o filme é dedicado, ainda era viva. E como sempre acontecia quando ela ficava doente, o grupo de amigos que vinha da época da militância estudantil dos anos 60 se reunia na antessala do hospital à espera de notícias.

Vera Silva na saída para o exílio
Vera Silvia, à direita, saindo da tortura, paralítica, quando foi libertada junto com os 40 presos políticos trocados pelo embaixador alemão

Vera esteve doente inúmeras vezes. Além dos surtos em que sempre recordava as cenas de tortura, teve dois cânceres e muitos problemas decorrentes da sua saúde fragilizada.

Dessa vez,  ela deveria estar com 45 anos e quase morreu de uma infecção generalizada.  E foi olhando aquele bando de amigos que conversavam e discutiam como se estivessem numa assembléia estudantil, tendo como grande elo não o cotidiano de cada um, mas a ligação com Vera que vinha de um passado comum, que pela primeira vez pensei em fazer esse filme.

Por que ela aglutinava tanta gente e pessoas tão diferentes? Nunca consegui responder, a não ser pelo óbvio. Seu charme, inteligência e dedicação à amizade, como se a AMIZADE fosse possível em letras maiúsculas e sozinha.

Mas fazer um filme é complicado, e outros projetos foram se sobrepondo. Esse filme ficava apenas como uma idéia longínqua, que às vezes voltava à tona quando outros filmes me lembravam desse projeto (como o Declínio do Império Americano e Invasões Bárbaras).

Foi apenas quando Vera morreu que a dor me levou a voltar ao projeto e começar a escrever.

E quando já estava fazendo o filme me veio à cabeça esse poema de Fernando Pessoa:

O mytho é o nada que é tudo.
O mesmo sol que abre os céus
É um mytho brilhante e mudo –
O corpo morto de Deus,
Vivo e desnudo

Foi mais ou menos como admitir que um mito não se explica e que não haveria explicações nesse filme. Pois o mito é como uma conversa, repassada de geração em geração. E, portanto, o filme deveria ser feito de impressões sobre a nossa geração, nossos filhos e a sobrevivência. Seria: “A memória que me contam”.  E Vera, que passou a se chamar ANA, seria, como na vida real, o elo de ligação entre esses personagens. Mas da mesma forma que Irene, Paolo, Zezé e todos os outros, ANA é um personagem ficcional com toda a liberdade que isso permite. Assim, lhe dei uma sobrinha francesa de uma irmã que teria ficado em Paris e não reproduzi as particularidades de Vera nem de sua família. Ou seja, ANA existiu em função do filme e foi construída a partir do que a dramaturgia exigia.

A Ana da memória

Desde que pensei no filme, queria que Simone Spoladore fizesse o papel de ANA, o personagem livremente inspirado em Vera Silvia. Sabia que ela traria o mistério que o personagem necessitava. Aqui, Simone fala da sua experiência de como atriz interpretar alguém que se transformou num mito.

  • O que a atraiu no roteiro?

    O roteiro me atraiu porque faz um balanço da época da ditadura no Brasil, mas com o olhar de hoje. Fazendo perguntas, mais do que dando respostas. Além disso é um roteiro muito afetivo, já que a diretora compartilha com o espectador a sua memória. A homenagem à Vera Silvia Magalhães, além de mostrar o lado mítico da personagem, a imagem que ficou na cabeça de todos que conviveram com ela, mostra o lado íntimo, do amor e da amizade.

    Acho que é um roteiro épico e íntimo ao mesmo tempo. Conta a história do Brasil, a história da Vera , a história da Lucia, e por isso mesmo conta a história de todos nós brasileiros.

  • Como foi para construir o personagem?

    O nome do personagem no roteiro é Ana, o que permite uma abordagem mais poética da personagem. A Lúcia nunca me pediu para que eu imitasse a Vera Silvia Magalhães, apesar de eu ter assistido imagens dela falando e refletindo sobre a época. Seria impossível eu imitar uma mulher de 60 anos, num corpo de 30, porque o que acontece de diferente é a passagem do tempo na pele das pessoas. Outro desafio era, apesar de ter 30 anos, conseguir refletir emocionalmente as experiências de uma mulher que viveu 60 anos, e não apenas isso... viveu muito, intensamente, se entregou a uma luta, virou a própria luta.

    Li alguns livros sobre a ditadura no Brasil, mas acho que minha principal inspiração foi a afetividade da Lúcia, o nosso encontro no set de filmagem, o quanto eu sentia que aquela história era a história dela. Isso era único e emocionante.

    Além disso, vendo as imagens da Vera Silvia Magalhães, fiquei com uma imagem dela como uma mulher cheia de água. Essa imagem me guiou em todas as cenas. Uma afetividade muito clara e transparente, a força que tem a fragilidade.

  • Como você vê a figura de Vera Silvia Magalhães ?

    Vera Silvia Magalhães é a imagem de uma mulher que lutou pelo Brasil. Lutou por liberdade, por mais consciência e por mais amor. Sacrificou a sua vida por acreditar que o mundo pode ser melhor.