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um filme de Lucia Murat

O canto – épico e frágil

Diego Fontecilla é um músico chileno, responsável pela trilha sonora de alguns longas-metragens. Quando nos encontramos pela primeira vez para conversarmos sobre o filme, vimos que ele teria de ter um tom operístico pois trata dos sobreviventes de uma utopia. Abaixo, sua experiência na composição da trilha deste filme:

Diego Fontecilla - somO principal desafio na composição da música de A memória que me contam foi acompanhar a ação, apoiando sutilmente as emoções e situações, tentando não dramatizar excessivamente ou manipular o personagem nas cenas.

O personagem de Ana serviu como um guia: uma mulher que está no limite entre a vida e a morte, entre a presença e ausência. O estado de Ana, este ir e vir, é para mim como as ondas do mar na cena de abertura, um som sutil, um pulso de vida que ainda resta. Através da música, tentei indicar a fragilidade e a profundidade desta mulher. A voz da soprano foi utilizada como uma representação musical de seu caráter forte e épico.

Senti uma identificação especial com o personagem de Paolo (Franco Nero), no sentido de que é um imigrante. Eu sou chileno e há alguns anos me mudei para a Itália, de modo que este sentimento de não pertencimento de que ele fala, da sensação de estar fora do ambiente em que vivemos, eu consigo reconhecer. Apesar de ser bem-vindo e me sentir confortável na nova sociedade, há sempre uma distância cultural e de alguma forma um anseio pelo próprio país.

Também tentei apresentar esse tema no personagem de Ana, na sua chegada na França, fugindo da ditadura brasileira. Essa mistura de solidão, melancolia, e ainda o fascínio causado pelo fato de viver em um país estrangeiro, são elementos que tentei imprimir na composição da música.

A força das imagens

Guillermo Nieto (Bill Nieto) é um fotógrafo argentino, com dezenas de longas, entre eles Leonera, LLuvia e outros mais pelos quais ganhou muitos prêmios de direção de fotografia. Conhecia e gostava do seu trabalho. Sabia que com ele podíamos trabalhar com tons dramáticos na chuva, como na
abertura do filme, e chegar ao lirismo de muitas cenas. Abaixo, Bill fala como foi fazer o filme:

Eu sou argentino e esta é a primeira vez que trabalho em um longa-metragem no Brasil. Na primeira viagem, tentei compreender o universo da diretora, o que ela queria dizer e como. No Rio, basicamente visitamos possíveis locações para determinar o que seria mais interessante para o filme, e em Paulinia, onde construiríamos cenários e precisávamos tomar decisões importantes, tivemos as primerias reuniões com todos os chefes de departamento.

Foi um desafio para mim trabalhar com uma equipe desconhecida  em outro idioma (que, apesar de irmão, tem uma cultura e técnica diferente), sem saber como eles iriam se adaptar à minha forma de trabalhar (meio caótica e muito intuitiva!) e eu com a deles. Foi uma surpresa agradável conhecer uma equipe altamente profissional, altamente comprometida com o filme, a diretora e sua história. Houve então muita troca e esse processo foi muito construtivo para o filme, que realmente ganhou no decorrer do tempo. A narrativa visual foi ganhando espaço sobre os diálogos acrescentando muito ao filme.

Na filmagem, um dos grandes desafios era a sala de espera. Como transformar este lugar frio e monótono em um lugar quente com nuances. Como transformar a luz chapada, que geralmente tem uma sala de espera, em uma luz mais direcionada em torno dos personagens, sem deixar que o ambiente representasse um hospital. Também na sala de espera, a Lucia me pediu mais liberdade para os atores, pois era um momento em que eles tinham de estar mais livres, eram muitos diálogos e seria melhor para sua interpretação que pudessem se movimentar sem estarem submetidos a um cronograma rigoroso de luz.

A memoria que me contam trabalha com dois tempos diferentes, um passado e um presente, mas que estão na verdade no mesmo plano. Para acompanhar essa história – e isso foi também uma decisão importante – decidimos que a fotografia deveria unir esses dois tempos e não separá-los. Ou seja, apesar de diferentes reconstituições históricas, a fotografia deveria trabalhar igualmente as diferentes épocas para que se visse o filme como um todo, contemporâneo, hoje.