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Fernando Moura - Maré, uma história de amor

Fernando Moura é o autor da música do primeiro filme de Lúcia Murat, “Que bom te ver viva” (1989). Em “Maré”, ele volta a trabalhar com a diretora. Desta vez, dividindo a trilha sonora com Marcos Suzano. Fernando e Marcos trabalham de 3 a 4 meses por ano no Japão, onde têm uma carreira consolidada, tocando com bandas locais e fazendo arranjos para o mundo pop. No Brasil, Fernando fez ainda toda a parte sonora de comemoração de 10 anos do Canal Futura, para quem trabalha regularmente. Este ano compôs e fez a direção musical do espetáculo teatral "Cordel do Quixote Doido" com texto e letras do Ruy Guerra. Ele respondeu a esta entrevista do Japão.

ENTREVISTA

Como foi fazer a trilha sonora no filme?

Fizemos um trabalho muito difícil e desafiador que foi construir os arranjos seguindo a edição das imagens e em cima de vozes que já estavam gravadas e sincronizadas a essa edição, assim não poderiam ser alteradas. Uma espécie de remix muito além da capacidade de qualquer DJ que conheço porque no caso deles, mudam ou editam as batidas e recombinam alguns elementos do arranjo original. No nosso caso, tudo isso teve que ser criado em sincronismo com as vozes e as imagens, que afinal é função da trilha sonora de qualquer filme.

O filme tem um coro de rap que pontua e narra a história. O rap é uma música muito forte hoje na periferia. Foi difícil dosá-lo dentro do filme?

Nem só na periferia. Precisa ver a quantidade de grupos e cantores de hip hop aqui no Japão... É hilário, eles copiam o melhor que podem, mas é dificil saber se é pior ouvi-los cantando em inglês ou na língua deles, que decididamente não se adapta à métrica do rap.

A concepção musical dos arranjos e da trilha sonora do filme é em cima de ritmos e grooves que são o mais importante na música atualmente e daí sua grande força de comunicação com os jovens. Mais do que jogar um loop (batida pré programada) americano de hip hop e repeti-lo eternamente acompanhando a voz, usamos ritmos brasileiros e sonoridade brasileira nas batidas seguindo sempre a edição das imagens em detalhe, para que a trilha contasse a história sob o ponto de vista auditivo sem ficar apenas naquela concepção de musical americano da "Sessão da Tarde" de parar o filme para entrar a música. A maior preocupação foi seguir, comentar e interagir com as imagens e isso foi muito bem ressaltado pela mixagem da música em Dolby surrond 5.1.

A dose de hip hop já estava definida pelas imagens, nossa questão foi fazer com que isso não ficasse uma colagem de loops simplesmente e tivesse um sentido musical dentro da narrativa do filme.

Que outras influências são sentidas no filme?

O ritmo, como falei é o que predomina na música pop mundial e nós somos o país do ritmo, onde tantos vem beber na fonte e outros simplesmente "incorporam" na maior cara de pau elementos de groove da nossa música.

Só que hoje em dia, essa via é de mão dupla e para falar a verdade, começamos a fazer o arranjo da música de abertura do filme (Favela) aqui em Tokyo ao som do último CD do produtor de hip hop Timbaland.

À sonoridade de grooves feitos pelo Suzano com sons dele na bateria eletrônica, somamos instrumentos brasileiros de percussão, sons eletrônicos de última geração via os teclados que tenho acesso aqui no Japão e reharmonizei a música toda usando muito da variedade harmônica que é tão apreciada na música brasileira. O original desta música tinha 3 minutos gravados, mas a imagem da abertura tinha quase 7 minutos! Tivemos então que “construir” estes sete minutos

Como foi o processo de trabalho com a Lúcia e o resto da equipe?

Recebi o convite na véspera de uma viagem de 3 semanas para o Japão Então, começamos o trabalho num laptop com teclados virtuais, um software de gravação, a bateria eletrônica do Marcos e seus instrumentos de percussão. Trabalhamos no quarto do hotel nos intervalos de nossa apertada agenda japonesa.

Mandávamos por MP3 as ideias para a Lúcia que ia nos orientando e quando voltamos ao Brasil, a difícil música de abertura, o Baile Funk e o primeiro Coro já estavam bem próximos do que foi para a tela e pudemos continuar nosso trabalho trocando o sashimi por um essencial feijãozinho com arroz.