Ines Salgado > Figurino

Inês Salgado assinou o figurino dos três últimos filmes de ficção da cineasta Lúcia Murat: ‘Doces poderes’ (1997), ‘Brava gente brasileira’ (2000) e ‘Quase dos irmãos’ (2004). Mas a parceria começou ainda antes, em ‘Daysy das almas deste mundo’, episódio de Lúcia em ‘Oswaldianas’ (1992), um dos poucos filmes de longa-metragem feito na crise dos anos Collor. Sua estréia no cinema aconteceu em ‘Sermões – A história de Antônio Vieira’ (1989), de Júlio Bressane. Com a irmã Bia Salgado, fez o figurino para ‘Cidade de Deus’ (2002), de Fernando Meirelles, e logo depois foi responsável pelo figurino de ‘Cidade dos homens’, nas versões para a TV (2003-2005/Philippe Barcinski e César Charlone) e para o cinema (2007/Paulo Morelli), e de ‘Mulheres do Brasil’ (2006), de Malu de Martino. Tem passagens também pelo teatro, onde começou sua carreira quase por acaso. Com Moacir Chaves, assinou várias peças, como o seu último trabalho, ‘Macbeth”. Para o ano de 2008, ela estará envolvida com a concepção do figurino para as comemorações dos 200 anos da chegada da Corte Portuguesa ao Rio.
ENTREVISTA
Quais as diretrizes básicas que você seguiu para a concepção do figurino?
Ficou definido que um bando teria cores quentes e o outro, frias. Esse recurso facilitaria a identificação das facções rivais do tráfico. Como acontece hoje, onde um lado tem uma cor e outro, outra. Como se tratava de um musical, podíamos aproveitar uma margem da fantasia. À protagonista, que era do lado ‘quente’, restaram, então, os tons mais fortes de amarelo, vermelho, abóbora, dourado. Somente na coreografia do ‘Pneu furado’ (F.U.R.T.O.) usamos cores escuras para dar um tom sombrio. Já no baile funk a orientação era usar muito brilho. Fora isso, as roupas tinham que ter movimento. Muito movimento para que conseguissem acompanhar os saltos, os rodopios... A roupa precisava ressaltar o movimento, ajudar na coreografia. Para turma do balé clássico o ideal eram roupas mais justas, com malhas, meias, ou saias rodadas. Já o pessoal do hip-hop pedia calças largas, roupas mais à vontade, que, sobretudo, não atrapalhassem as evoluções.
Foi difícil convencer o pessoal do hip-hop a tirar o boné?
A orientação era que cada um tinha que representar o seu personagem, mas sem perder a sua característica. O personagem e o bailarino se confundiam. O figurino seguiu assim o estilo de cada um. Quem era do hip-hop e ia dançar hip-hop continuava com o boné. A dificuldade maior é que se tratavam de 32 adolescentes.
Como assim? Eles brigavam entre si pelas roupas?
Não, mas, às vezes, eu definia uma coisa e eles queriam trocar entre si. Ou queriam experimentar tudo. Dar limite a atores profissionais neste quesito já é difícil, com eles, onde tudo era novidade, foi enlouquecedor. Claro que tivemos prova de roupa, mas no set tudo fica diferente, faz calor, faz frio, você tem mais claro a noção de conjunto... Outra trabalheira era pensar nos pés, porque como era um musical e eles iam dançar em muitas das cenas, o sapato era uma preocupação. E eles foram todos doados. Imagina o custo que seria isso? Eles gastaram muito sapato. Na cena da praia, não deu para colocar chinelo de dedo, sandália... porque eles tinham que dançar. Então, tivemos que usar o tênis.
Como foi sua formação?
O filme tem uma grande participação da fotografia e da direção de arte, por conta da proposta estética diferenciada. A grande dificuldade é que ele tem um pé na realidade e ao mesmo tempo transita pela fantasia.Fiz curso até de Designer de moda, Na Universidade de Modena, na Itália. Mas tudo que sei aprendi fazendo. Comecei a profissão casualmente pelo teatro e de lá pra cá não parei mais.