Emmanuel Crosset > Mixagem

No festival de Cannes de 2007, Emmanuel Croset teve o prazer de ver quatro filmes mixados por ele na seleção (um em cada mostra do festival). Este foi um dos grandes momentos vividos por este mixador francês que tem também tido uma boa experiência com filmes latino-americanos. Seu primeiro trabalho neste mundo foi o premiado “la Cienega”. Posteriormente, trabalhou com Lucia Murat em Quase Dois Irmãos e agora veio ao Brasil mixar Maré, nossa história de amor.
ENTREVISTA
Como foi trabalhar neste filme?
Para mim foi um trabalho incrível. Nunca tinha trabalhado com uma música tão bela, tão bem mixada, tão bem composta. Eu nunca tinha trabalhado num filme em que o som fosse de tanta importância para o filme e, é claro, para o espectador. Quando nós terminamos Quase Dois Irmãos, eu falei para a Lucia que nós tínhamos quase feito um musical. Desta vez, quando terminou eu brinquei com ela que nós tínhamos feito quase uma ópera.
Como foi trabalhar num filme que tem momentos de realidade e momentos de fantasia. Como tratar?
O que tentei fazer na mixagem ao estudar o som direto (dos diálogos) e as vozes cantadas nas músicas foi tentar fazer um som em que tudo ficasse unido, ou seja, em que as vozes faladas se parecessem com as vozes cantadas, estivessem no mesmo patamar. Por isto, usei muito reverbe nas vozes, para que os diálogos ficassem mais “musicais”, o que permitia uma transição do direto para a música menos brutal, menos estranha para o espectador.
Particularmente na Linha vermelha como você trabalhou para permitir que o espectador entrasse neste mundo de fantasia, que ele não estranhasse esta passagem, já que a cena não era realista de todo?
Desde que eu vi o filme, na cópia em DVD que a Lucia me mandou apenas com o som direto e as vozes, eu já via que esta ideia passava muito bem devido à forma como foi filmado. Isto significava que o meu trabalho era acentuar isto. E de qualquer maneira, como o filme começa com uma canção (a abertura), eu acho também que este estranhamento já não se coloca para o espectador.
É normal na mixagem você optar por tirar o som de uma determinada sequência?
Sim, na mixagem é o momento em que todos os sons chegam e onde a gente pode escolher. Tem questões que se colocam pela primeira vez na mixagem, que é quando você tem o filme completo, com todas os ambientes, ruídos, som direto e música. E as decisões são tomadas pouco a pouco. Como na montagem de imagem se encontra o ritmo do filme, eu penso que na mixagem é onde realmente encontramos o som do filme.
Qual foi a diferença de trabalhar em Quase Dois Irmãos e aqui? E como é para você trabalhar numa outra língua que não a sua?
Trabalhar com outra língua – bom é preciso sempre ter alguém do lado que conheça bem o idioma – mas em compensação, eu tenho a impressão que fico com a música da língua´, o que acaba tornando o trabalho muito interessante.
Quanto à primeira questão, quando eu fiz o filme da Lucia em Paris, eu não estava perdido, era a minha cidade, mas em compensação sobre o universo sonoro, eu estava completamente perdido. Era tudo muito novo. Aqui, ao contrário, eu estou perdido na cidade, eu sou estrangeiro, não tenho os códigos, mas a massa sonora é do país em que me encontro. Foi menos complicado.
Qual era o conceito que vocês tinham para a mixagem?
Eu acho que nós tínhamos um conceito sim, o conceito da liberdade. A gente não se perguntava se isto já tinha sido feito antes ou porque as pessoas dançavam na favela. Tudo era possível. E este conceito – de uma verdadeira liberdade – foi muito importante.